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Marcos Ortiz

Editorial: Um pouco da minha história nos 66 anos do Brinco de Ouro da Princesa

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Nesse dia 31 de maio, aniversário da inauguração do Brinco de Ouro da Princesa, confesso que um clima de melancolia me atingiu. Nasci em 1971, na minha primeira infância pra quem vivia nas periferias, ir aos jogos de futebol era um evento, digamos, dos não mais corriqueiros.

Ingressos, locomoção, enfim, ao menos pra mim, naqueles primeiros anos de vida, ir ao Brinco de Ouro não era dos programas familiares, o jogo a gente via pela TV com bombril na antena pra pegar em UHF ou ouvia pelo rádio mesmo. A velha Kombi do meu pai que o diga, quantas vezes esgotei a bateria começando a ouvir duas horas antes e só desligando duas horas depois.

Pois bem, lembro-me muito bem da primeira vez que pisei naquele local, era 04 de julho de 1976, um domingo à tarde. Em campo Guarani x São Bento, eu tinha quatro anos, faria cinco em pouco mais de duas semanas e sequer imaginava que aquilo fosse uma final de turno, mas era. Dentro de campo, e eu assistia ali, da cabeceira norte, onde hoje não se vê mais torcedor, porque o espaço é interditado. Ficávamos na primeira escada, pouco acima, meu pai, minha mãe hoje tão saudosa pra mim, nosso vizinho, Seu Milton o Chacrinha e foi dali que eu vi o Guarani vencer por 3×0.

Vou poupá-los do palavrão que começa com P, mas os olhos daquela criança brilharam demais. Gols, Torcida dentro do gramado, jogadores carregados nos ombros, uma festa que eu confesso nunca ter visto até então na minha vida e a partir dali o Brinco de Ouro passava a ser passeio obrigatório. Acho que tanto meu pai quanto minha mãe já sabiam que a partir da primeira vez a rotina da família mudaria, e eles eram os meus companheiros de arquibancada, com direito a almofadinha do Guarani, bandeira de mão branca com o G imenso verde desenhado no meio.

Camisa? Boné? Não, isso não fazia parte da minha realidade naquela época… nosso dinheiro não dava, dava pros ingressos, pra gasolina da Kombi e pro estacionamento, sim, já tinha flanelinha naquela época.

O tempo passou, minhas idas ao Brinco passaram a ser constantes, era meio que ritual de família mesmo e ai a Kombi já levava meu tio, minhas tias e alguns outros agregados. Foi lá que eu vi o Bugre ser Campeão Brasileiro, foi la que vi ele ganhar a Taça de Prata, foi lá que vi Guarani x Flamengo com gente “assistindo” o jogo do fosso, foi lá que eu perdi um título brasileiro quase no final da prorrogação, vi uma disputa meio estranha em 1987 que depois saberíamos que teria sido nosso segundo brasileiro, depois vi o Viola marcar um gol de tornozelo me tirando um paulista.

Entre outras coisas eu fui idolatrando o Careca, Renato, Zenon, Capitão, Zé Carlos, Gomes, Edson, Miranda, Mauro, Neneca, Bozó, Julio Cesar, Neto, Boiadeiro, Evair, João Paulo, Pereira, Edu Lima, Edilson, depois vieram Amoroso, Djalminha, Luizão, e alguns outros que se citar aqui, não cabem no texto.

Sinal dos tempos. Hoje o Brinco de Ouro não é mais nosso, hoje os craques não desfilam mais pelo nosso gramado, hoje as arquibancadas não tem mais aqueles públicos mágicos, foram embora junto com as bandeiras, as almofadas e as grandes festas de duas torcidas em jogo importante.

Hoje, 66 anos depois de inaugurado, o Brinco de Ouro não é mais palco de grandes finais, de jogos importantes contra os chamados grandes times do futebol brasileiro. Hoje o futebol é pálido, as contratações são contestáveis e a festa que se via ficaram lá no passado, quando o Brinco era nosso e quando o futebol do Guarani encantava o Brasil.

Hoje, 66 anos depois da inauguração e praticamente 43 anos depois da minha primeira vez ali, o que resta é escrever sobre as lembranças, na maioria boas, contar esta história, manter vivo o fogo e a paixão de ser Bugrino.

Hoje, ir ao Brinco é muito mais um ritual do que um grande e imenso prazer. A vida muda, as coisas mudam, mas eu confesso que pra mim o Guarani mudou demais e mudou pra muito pior. Culpados? De que adianta enumerá-los? Vai mudar o que? O que já aconteceu não volta mais, o que pode acontecer é mudar daqui pra frente, jamais daqui pra trás.

A mãezinha não vai mais me dar a mão pra subir aqueles degraus enormes e me abraçar cada vez que o Guarani fizer um gol. O pai, nem me lembro qual foi a última vez que fomos ao estádio… ele gostava do bom futebol, e isso não se vê pelos lados do Brinco há um bom tempo, pra ele, pro tio, ir ao estádio virou um programa chato, massante.

O vizinho Chacrinha faleceu há muitos anos. Enfim, tudo virou história. História de um Bugrino vivida ali, dentro do Brinco de Ouro da Princesa.

Ali eu já comemorei muito, já chorei muito, já apanhei com baqueta de surdo da torcida adversária dentro do tobogã em jogo da Libertadores, já corri carregando faixa, já juntei muita bandeira e mastro de bambu. Já joguei farinha de trigo pra cima, papel higiênico pra baixo. Já vesti muita camisa, já andei descalço, de chinelo, de tênis vagabundo, de tênis de marca, até de terno e gravata, e acreditem, foi pra assistir jogo das arquibancadas em 1994.

É, a gente não pode mudar o que já aconteceu, nesse ponto eu digo, graças a Deus que não. Mas a gente pode mudar oque vai acontecer, talvez não com o Brinco, mas com o Guarani, e só por isso os meus olhos brilham de novo, igual brilharam os olhos daquele menino em 04 de julho de 1976.

Muito obrigado Brinco de Ouro da Princesa, parabéns, cumpra sua missão até o último dia da sua existência e, se for inevitável, continue cumprindo sendo a base de reconstrução do Guarani Futebol Clube e de todos os Bugrinos que um dia estarão no meu lugar contando suas histórias.

O Brinco será imortal, como imortal será o futebol e o gigantismo que um dia teve nosso Guarani e o amor das gerações que passarão por lá, porque todos eles estão acima da história de cada um de nós, são a história do Guarani Futebol Clube que cada um de nós tem a obrigação de continuar escrevendo, não apenas contando, mas escrevendo novos e melhores capítulos a cada novo dia.

Te amo, Brincão! Te amo, Bugrão!

Marcos Ortiz

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