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Marcos Ortiz

Crônica: Era Guarani x São Paulo… hoje a noite é São Paulo x Guarani

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Na foto do Diário Gaúcho Tite, Ricardo Rocha, Tosin e Evair no primeiro jogo da final de 1986.

Aquela quarta feira amanheceu diferente, muito calor, e confesso que as aulas no boa e velha “Ana Rita” não tinham a menor importância, a cabeça tava em outro lugar, à noite tinha jogo. Era 25 de fevereiro, o ano era 1987. O ego do Torcedor Bugrino estava insuflado, quem era o favorito? Claro, era o Bugre que tinha melhor campanha, jogava em casa, o dia do Bi Brasileiro tinha chegado.

16 anos de idade, sonhos, planos, tanta coisa ainda por fazer, por realizar, mas uma coisa absolutamente não mudou ao longo desses quase 31 anos, o amor, a paixão, a dedicação ao Guarani Futebol Clube.

Assim o dia foi se arrastando, ninguém em Campinas falava de outra coisa, uns torcendo a favor, outros torcendo contra, mas Campinas respirava Guarani x São Paulo, a final do Campeonato Brasileiro de 1986. Eu não via a hora de acabar a tarde, o jogo era as 21:30, mas a gente sairia lá do Varejão do Seu Mauro às 18, e por volta das 16:30 eu já estava lá, tínhamos tanta coisa pra arrumar.

Os sacos de farinha já estavam separados, sim, a gente fazia fumaça com farinha de trigo, os pacotes de papel higiênico estavam separados, as bandeiras, a faixa da antiga TUB, os mastros, enfim, tinha que deixar tudo prontinho pra ver o Bugrão de noite.

A gente ia pro Brinco num camburão, pra quem não sabe, camburão era o carro usado pela Polícia pra levar preso. O nosso (na verdade do Marquinhos) era azul, velhinho, e tinha um problema, não pegava na partida. Devagar todo mundo foi chegando, íamos em cerca de 10 pessoas espremidos ali e de cara uma boa notícia: Arrumaram a partida do camburão! Pode subir e vamô embora… que nada, todo mundo lá dentro, vira a chave e nada… risos, simbóra empurrar.

Desceram todos, eu estava sentado bem no meio, bastou colocar o pé no chão e alguém já estava empurrando o camburão, resultado, o bicho passou em cima do meu pé direito, putz, doeu pra caramba, mas ai alguém já gritou “vamô embora, tamô atrasado”, nossa passou rapidinho, vamô pro Brinco!

Chegamos, toca descer tudo do porta malas. Eu não tinha uma camisa boa pra usar naquele dia, lembro que o Silvinho me deu uma, era uma camisa do Guarani de 1976, diferente, mas linda, e como eu usei aquela camisa, acho que por uns dois anos seguidos era com ela que eu ia pros jogos. E o batuque? A, o pessoal do Embarsamados do Samba” ia tocar pra gente, a noite era especial.

Tobogã, lado esquerdo (bem esquerdo mesmo), faixa no lugar, bandeiras nos mastros, farinha, papel, tudo arrumado, Brinco lotado e lá vem o Bugre de Sérgio Neri; Marco Antônio, Ricardo Rocha, Valdir Carioca e Zé Mário; Tosin, Tite e Boiadeiro; Catatau, Evair e João Paulo.

Nem bem começou o jogo, a gente ainda tava se recuperando da festa da entrada, limpando a farinha de trigo do corpo e lá veio o Zé Mário pela esquerda cruzando a bola, claro que o Evair já tava pronto pra tocar pro gol, mas ai veio um tal de Nelsinho e empurrou pro fundo das redes. Nossa, dois minutos de jogo, Guarani 1×0 São Paulo, não tinha jeito, o Bi Brasileiro chegou!

Não foi bem assim, o São Paulo empatou logo depois, o gol foi do Bernardo, um volante grandalhão, não faz mal, a gente faz outro já já. Não, a gente não fez, dentro de campo tinha um tal de Aragão cuidando de tudo pra que o nosso Bi Brasileiro não viesse, no tempo normal só ele não viu o pênalti em cima do João Paulo e depois, quando o jogo já tava na prorrogação, só ele sabe porque expulsou o Vagner. A prorrogação mal tinha começado e veio um susto, Pita, um dos melhores jogadores do São Paulo, o camisa 10 virou o jogo aos 02 minutos.

A Torcida Bugrina tinha tanta confiança no time que o Brinco não ficou quieto, e não era quem tava ganhando que festejava não, era a gente que tinha certeza que ia ganhar, não deu outra, escanteio cobrado da direita e veio o Boiadeiro, caramba, gol de cabeça do Boiadeiro, é, o Bi Brasileiro tinha chegado mesmo! Quer mais? Tinha! Começou o segundo tempo da prorrogação e la se foi o João tocar terror na defesa do São Paulo, o cara tinha turbo, aquela velocidade não era normal, parecia alguém andando de moto contra alguém a pé atrás dele, faca cortando manteiga, golaço, Guarani 3×2 São Paulo, 03 minutos do segundo tempo da prorrogação e de novo era noite do nosso Bi Brasileiro, não tinha jeito, nosso time era uma máquina, eram 15 jogos invictos até ali, maior pontuação, melhor aproveitamento, menor número de derrotas em toda a competição, melhor ataque, melhor defesa e o goleiro menos vazado, que não era o Sérgio Neri, era o Robson. É Campeão!

E eu? Ah, eu tava lá no meu cantinho do Brinco, o lado esquerdo do tobogã fazendo muita festa, pulando, gritando, rouco demais, feliz demais. O jogo tava acabando, faltava um minutinho só, o Bi Brasileiro era nosso. Pronto, apaga tudo, o cara do primeiro título brasileiro do Guarani tava do outro lado, tava empatado com o Evair, ambos tinham 25 gols na artilharia do Brasileiro de 1986 e depois de um chutão lá de trás a bola foi desviada e sobrou pra ele, não tinha ângulo, não tinha como, mas teve! Gol do São Paulo, 3×3, não dava tempo de tentar o quarto, acabou…

Fomos pros pênaltis, mas vai ser nos pênaltis então! Não, não foi…

De cara o Marco Antônio perdeu e quem foi bater? Ele, o Careca… a gente respirou fundo e viu lá de cima o Sérgio Neri defender, putz, ele pegou o pênalti do Careca, é hoje… não, não foi… de repente tava 1×1 no terceiro pênalti e quem vai cobrar? Ele, o cara do jogo, o melhor jogador em campo naquela final e, sem dúvida, um dos melhores de todo o campeonato. João Paulo respirou, encarou o Gilmar e bateu, go… parou no meio, a bola saiu.

Infelizmente pro Guarani ninguém mais errou, todos os Bugrinos do Brinco ainda se juntaram ao Sérgio Neri no último pênalti, Wagner Basílio bateu forte, rasteiro, no canto direito, o Sérgio ainda tocou na bola, a gente esboçou um sorriso, mas não teve jeito, ela entrou. O Bi Brasileiro tava adiado, o pé começou doer, a volta pra casa foi horrível, minha mãezinha, tadinha, passou a madrugada inteira cuidando do meu pé inchado, quebrou, e quando a adrenalina passou, doeu! Doeu muito.

Mas sabe o que a gente dizia um pro outro lá na saída do Brinco? Ano que vem a gente ganha!

Esse é um desenho curto do Guarani em 1987, a gente tinha até o termo pra chamar aqueles que só iam em jogos decisivos, eram os “Bugrinos de Final” e a gente tinha acabado de perder um Campeonato Brasileiro daquele jeito, mas conseguia olhar um pro outro e dizer: Ano que vem a gente ganha!

Hoje tem São Paulo x Guarani, nenhum Bugrino (uniformizado) estará nas arquibancadas do Pacaembu. Farinha de trigo? Papel Higiênico? Batuque? Bandeira de mastro? Nada. Eu confesso que não entendo essa evolução tão decantada que transformou a alegria do povo em algo extremamente mais triste. Os jogos, de festa popular, se transformaram em eventos esportivos, chegando ao cúmulo de não permitirem que o adversário se faça representar nas arquibancadas.

Mas hoje a noite tem São Paulo x Guarani e não adianta, toda vez que essas duas camisas se encontram desde 25 de fevereiro de 1987 eu fecho os olhos, lembro de tudo isso, sinto meu pé direito doer e me pergunto: 32 dias depois a gente pegou o São Paulo de novo, era Libertadores da América, era no Brinco, e foi 3×1 pro Guarani, não eram os mesmos jogadores, mas o resultado mostra que, se Guarani e São Paulo se enfrentassem 10 vezes seguidas, o Bugre ganhava sete, empatava duas e perdia uma… não dava pra ser uma depois?

Não é decisão de campeonato, mas é decisão pro campeonato, é Paulista, não é Brasileiro, mas é Guarani x São Paulo, hora de ser de novo Guarani. É fora de casa, a gente tá longe de ser favorito, longe mesmo, mas é Guarani e do outro lado tem o São Paulo.

Vamos lá, façam aquele menino de 16 anos soltar aquele grito que ficou preso lá atrás. Os cabelos tão brancos, a barriga cresceu, ele começou fumar, nunca mais parou, se desgastou, sofreu, sorriu, mas continua aqui, torcendo pelo Guarani e hoje é contra o São Paulo.

A gente se fala depois, agora vamos torcer!

 

 

Marcos Ortiz

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